Sexta-feira, Novembro 6

mangeons-nous




[L'impératif d'un certain verbe]

Quinta-feira, Outubro 22

Estranho a bonança que vem depois da tempestade.
Chego a pensar que talvez prefira menos paz, porque agora não te sinto, não me dóis, não te quero, não te penso, não me inquietas, não te sonho, nem me acordas.
Que é do sobressalto, da fúria de te beijar, da tensão dos corpos que se atraem, da paixão arranhada nas tuas costas, dos abraços feitos de gemidos, da gana de não querer mais do que te querer?
E agora como te ressuscito sem perceberes que te matei?
E agora que faço eu com esta paz?

Terça-feira, Outubro 6

Fresco, fresco.

O sorriso saiu-me caro.
Eu indecisa entre os brócolos e a couve-flor, e ele de passo firme a vir direito a mim.
Em menos de dois segundos tenho-lhe a voz a bater-me no ombro, e percebo que afinal já sabia que, de uma maneira ou de outra, que de uma forma qualquer isto ia acontecer. Aqui o tenho, o homem para quem sorrio há já uns dias, sei lá eu porque cargas de água, talvez porque o acho simpático, talvez porque me faz lembrar alguém, talvez porque tem idade para ser meu pai, cá está ele, todo impado de charme a perguntar-me de onde nos conhecemos.
Largo os brócolos – credo! – e respondo-lhe que não, não nos conhecemos, mas a voz sai-me macia de mais e sinto-me ridícula, agarrada ao carrinho das compras, a viver um dos maiores clichés de supermercado.
Não faz caso. Todo fresco, apresenta-se com a cordialidade dos cavalheiros lampeiros de outras épocas, e eu não sei o que faça ao riso, o que faça aos brócolos – levo-os – o que faça ao homem – não o levo – o que faça agora, depois de tanto lhe ter sorrido, sei lá eu porquê.
E de repente o Pão de Açúcar é o sítio mais doce do mundo, diz ele, e não resisto mais ao riso, e disfarço-o com mais um sorriso, e sei que estou a ser mal interpretada, mas a vida é feita disto, de pequenos mal-entendidos que até podem resultar em conchavos fantásticos ou não.

Neste caso, não, cavalheiro. Neste caso, não.

Terça-feira, Setembro 8

Síndrome de Estocolmo

Tenho saudades de ti.

[Do mal que me fazias, sabes?]

Quinta-feira, Agosto 20

Os homens fortes são frágeis.
Os outros vão à guerra, combatem por substantivos abstractos, voltam com medalhas de glória, de honra, de pátria; vêm brutos e toscos e valentes, mas nunca fortes.
Os homens fortes lideram, passam noites em branco, têm dúvidas e angústias, decidem com a cabeça, consultam o coração, adormecem tarde e despertam pela alvorada, consistentes, resolutos e inabaláveis.
Os outros dão ordens, não pensam mais no assunto, dormem pesadamente o sono oco de quem tem certezas encomendadas.
Os homens fortes abraçam a mulher que amam e desse amor fazem tesão, e com tesão fazem amor, e a essa mulher fazem-na rainha.
Os outros vão às putas.
Os homens fortes procuram secretamente o regaço da mãe, brincam como gaiatos, refugiam-se no colo morno, choram se for caso disso, e crescem ainda mais.
Os outros enfrascam-se num bar, dão palmadões nas costas do gajo com quem têm conversas etílicas de meias-horas, de meias palavras, agora num bar, depois noutro, já agora também naquele que tu ainda não conheces, pá. As noites saturam-se em tropeções de meias-horas até ao momento amnésico em que a cabeça lhes tomba no balcão, adormecem ao volante sem saber quem são, o que fazem, para onde vão, até os vapores desaparecerem. Acordam geograficamente confusos, mas para isso têm mapas e seguem-nos e a mãezinha não é para aqui chamada.
Os homens fortes amam e desprezam e admiram e odeiam e respeitam e ignoram e pensam e perdoam e cogitam e interrogam-se e condenam e decidem e constroem e recuam, e nunca têm paz porque a paz é para quem não tem nem sonhos nem coragem para lutar por eles.
Os outros têm botões de punho nas camisas engomadas e assinam documentos importantes que não lêem porque alguém os leu por eles.
Os homens fortes nem sempre fazem a barba, nem sempre são cordiais, nem sempre são amistosos.
Os outros têm cara de poker.
Os homens fortes riem e, caramba, como riem. E choram também.
Os outros sorriem palidamente e mordem o lábio inferior até o nó passar.

Os homens frágeis são bravos.
Dos outros não reza a História.

Domingo, Agosto 16

Agenda[me]

Em Janeiro é tudo diferente.
As coisas, eu e tu.
Não importa o frio, não importa o futuro, não importa o que passou.

Até lá só temos de nos manter vivos. Respirar, respirar, respirar.

Terça-feira, Julho 21

Estar ali

Estar no lugar errado com as pessoas certas é tão desconcertante como estar com as pessoas erradas no paraíso.
Sentir que não há nem sítios certos nem pessoas perfeitas que nos sirvam, julgar que talvez sejamos nós os desajustados, os que nunca estarão bem em lado algum, seja com quem for, dá vontade de chorar, de esmurrar, de fugir sabe-se lá para onde – sim, para onde se foge sem destino – dá vontade de estar ali, sempre além, onde este desconcerto se esvai, onde, por minutos que sejam, percebemos que estamos no sítio a que pertencemos, com quem queremos estar, onde não somos estrangeiros nem transviados. Uns momentos de paz, de puro prazer, de uma felicidade perene – que dure alguns minutos, essa eternidade – e o regresso para o tal lugar errado onde as pessoas são perfeitas mas tão diferentes de nós, já não nos mina nem corrói tanto, por sabermos que, algures, existe o sítio certo para nós, e que, além, há alguém que nos enche o coração de uma felicidade rara.

E tudo fica [ligeiramente] mais simples.