Os homens fortes são frágeis.
Os outros vão à guerra, combatem por substantivos abstractos, voltam com medalhas de glória, de honra, de pátria; vêm brutos e toscos e valentes, mas nunca fortes.
Os homens fortes lideram, passam noites em branco, têm dúvidas e angústias, decidem com a cabeça, consultam o coração, adormecem tarde e despertam pela alvorada, consistentes, resolutos e inabaláveis.
Os outros dão ordens, não pensam mais no assunto, dormem pesadamente o sono oco de quem tem certezas encomendadas.
Os homens fortes abraçam a mulher que amam e desse amor fazem tesão, e com tesão fazem amor, e a essa mulher fazem-na rainha.
Os outros vão às putas.
Os homens fortes procuram secretamente o regaço da mãe, brincam como gaiatos, refugiam-se no colo morno, choram se for caso disso, e crescem ainda mais.
Os outros enfrascam-se num bar, dão palmadões nas costas do gajo com quem têm conversas etílicas de meias-horas, de meias palavras, agora num bar, depois noutro, já agora também naquele que tu ainda não conheces, pá. As noites saturam-se em tropeções de meias-horas até ao momento amnésico em que a cabeça lhes tomba no balcão, adormecem ao volante sem saber quem são, o que fazem, para onde vão, até os vapores desaparecerem. Acordam geograficamente confusos, mas para isso têm mapas e seguem-nos e a mãezinha não é para aqui chamada.
Os homens fortes amam e desprezam e admiram e odeiam e respeitam e ignoram e pensam e perdoam e cogitam e interrogam-se e condenam e decidem e constroem e recuam, e nunca têm paz porque a paz é para quem não tem nem sonhos nem coragem para lutar por eles.
Os outros têm botões de punho nas camisas engomadas e assinam documentos importantes que não lêem porque alguém os leu por eles.
Os homens fortes nem sempre fazem a barba, nem sempre são cordiais, nem sempre são amistosos.
Os outros têm cara de poker.
Os homens fortes riem e, caramba, como riem. E choram também.
Os outros sorriem palidamente e mordem o lábio inferior até o nó passar.
Os homens frágeis são bravos.
Dos outros não reza a História.